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Sangue azul: o
príncipe herdeiro
Alois von und zu
Liechtenstein e sua
esposa, a princesa
Sophie. |
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A 455 metros
acima do nível do mar e
encravada num vale de altas
montanhas cortado pelo Reno, ela
ainda mantém um traçado medieval.
Nas ruas estreitas, as casas
antigas, palácios barrocos e
chalés alpinos se misturam com
vinhedos e igrejas, tornando o
conjunto ainda mais singular com
um número surpreendentemente
grande e suspeito, para essa
cidade do tamanho de um vilarejo,
de modernos prédios de vidro e
aço dos bancos e instituições
financeiras que fazem sua fama
de centro financeiro em escala
mundial. O único problema para
os turistas é não saber alemão
ou inglês. Pois é nesses idiomas
que estão escritos os cartazes
de "Visita proibida" espalhados
no caminho que sobe a montanha
em direção ao principal símbolo
de Vaduz: um grande castelo
construído no penhasco sobre a
cidade. Ele está em reformas,
mas uma pesada corrente e
agentes de segurança bloqueiam
sua entrada. Os moradores, as
famílias do príncipe Hans-Adam
II e seu filho, o príncipe
herdeiro Alois, prezam pela
discrição.Porém, nesse dia de
festa, a família nobre abriu uma
exceção e foi se misturar ao
povo. Às cinco da tarde eles
chegaram na Städtle, rua
principal de Vaduz e foram
aplaudidos como merecem os
monarcas. Ao sentar-se na
tribuna de honra, lá já estavam
convidados especiais como o
presidente da Confederação
Helvética, Moritz Leuenberger, o
presidente austríaco Heinz
Fischer, o presidente do Senado
alemão, Peter Harry Carstensen e
muitos cidadãos de terno e
gravata, com ares de banqueiro.
Desfile
Popular
Em 12 de julho,
Liechtenstein comemorou 200 anos
de soberania. Além de convidar
chefes de Estado e
personalidades, o comitê de
comemoração ainda organizou um
desfile com a participação dos
habitantes das onze comunas do
principado. O divertido cortejo
mostrou um pouco da história e
cultura do país através de
fantasias, carros alegóricos e
pequenas peças de teatro.
Pitoresco no evento foi o
contraste entre os figurantes
vestidos de camponeses e alegria
contida dos príncipes. Um
jornalista alemão chegou a
comentar que sentia-se como na
Idade Média.O cicerone da festa
foi o príncipe herdeiro Alois.
Desde quando seu pai, príncipe
Hans-Adam II, se retirou do
poder em agosto de 2004, ele
assumiu o cargo de chefe de
Estado. Aos 38 anos, alto,
cabelos impecavelmente penteados,
o porte marcial vem da formação
recebida na Academia Real
Militar da Grã-Bretanha, em
Sandhurst. Já a polidez no
discurso se explica pelos
estudos de direito em Salzburg,
na Áustria.Como muitos nobres
europeus, Alois casou com outra
pessoa de sangue azul: a
princesa Sophie, trineta de
Ludwig III, o último rei da
Baviera. Perguntado por um
jornalista, ele respondeu que
não teve um matrimônio arranjado,
mas sim casou com a alemã por
uma questão de "amizade". Loira
e alta, ela permaneceu sentada
ao lado dele, trajando um
conjunto no estilo Chanel e
sorrindo o tempo todo para os
presentes no desfile.
O sexo frágil é um tema a parte
em Liechtenstein. O direito do
voto para as mulheres só foi
adotado em 1984. Também na
monarquia elas não têm muito a
dizer. Apenas os sucessores
masculinos da família do
príncipe podem ocupar o trono. "Qualquer
coisa diferente seria muito
complicado, pois o papel de mãe
não pode ser partilhado",
afirmou o príncipe durante uma
entrevista ao jornal alemão
Süddeutsche Zeitung.O comentário
levemente machista de Alois
parece não incomodar sua esposa.
A princesa Sophie já tem
trabalho suficiente com os
quatro filhos e grande número de
parentes nobres espalhados pela
Europa. Ela sabe que o príncipe
já gasta grande parte do seu dia
administrando a fortuna da
família, avaliada em cinco
bilhões de euros. Segundo
especialistas, apenas a coleção
de arte, que inclui quadros de
Picasso, Rubens e outros mestres
da arte, vale três bilhões de
euros.Dinheiro a parte,
importante para os príncipes é o
protocolo. No pódio frente ao
palanque dos convidados, no
início da cerimonia de
comemoração, o que mais o Alois
repetiu no seu discurso foi a
palavra "Soberania".Esse é um
termo caro para Liechtenstein
que, com uma área de 160
quilômetros quadrados e apenas
34.294 habitantes, sempre correu
o risco de ser aglutinado por
outros países maiores ou não ser
levado à sério pela comunidade
internacional.
Um exemplo ocorreu quando o
pequeno país alpino quis aderir
à Sociedade das Nações, também
conhecida por Liga das Nações, a
organização internacional criada
pelo Tratado de Versalhes e
predecessor da ONU. O pedido foi
recusado em 17 de dezembro de
1920. Motivo: a maior parte dos
delegados considerou que
Liechtenstein era um país muito
pequeno para ter uma atuação
concreta.
A riqueza de Liechtenstein não
salta aos olhos na primeira
visita. Vaduz não tem estação de
trem ou rodoviária. Sem carro,
só é possível chegar no país de
ônibus. O turista salta na
frente da garagem dos Correios e
logo vê um grande canteiros de
obras. No local está sendo
construído a nova sede do
Parlamento.Já á caminhada pelas
ruas já possibilita ver alguns
sinais da opulência. O moderno
prédio do Museu de Arte Moderna,
aberto em 2000, tem obras que
poucos museus no mundo poderiam
se dar ao luxo de expor.
Praticamente não há pensões, mas
sim um grande número de hotéis
cinco estrelas. No centro da
cidade é grande a concentração
de lojas especializadas em
artigos de luxo. O próprio
príncipe reconhece que o país
vive uma fase de fartura."Nosso
sucesso econômico não seria
possível sem muita sorte e ajuda
de Deus. Porém a nossa história
é também resultado de sábias
decisões tomadas no tempo
correto e da coragem de seguir o
caminho próprio", disse Alois
durante o seu discurso.Liechtenstein
é pequeno, mas ocupa há décadas
os primeiros lugares lista dos
países mais ricos do mundo. Seu
quadro social é de dar inveja
até às grandes potências. O PIB
em 2001 (último ano publicado)
foi de 4,2 bilhões de francos, o
que dá a fantástica soma de 120
mil francos (80 mil euros) por
habitante. O que era um país
agrário pobre no começo do
século, se transformou hoje num
centro financeiro e industrial,
onde existe uma empresa para
cada onze habitantes. "Isso
mostra o esforço que fazemos,
visto nos horários de trabalho
mais longos da Europa", declarou
Alois. No total, o principado
tem 70 mil empresas registradas,
sendo que apenas três mil são
nacionais. Os rumores de que as
67 mil restantes seriam apenas
empresas de "caixa-postal" não
são respondidos pelas
autoridades. Mas
reconhecidamente Liechtenstein é
um país atraente, do ponto de
vista fiscal.Uma grande parte da
fortuna da família von und zu
Liechtenstein vem da empresa "LGT
Group". O maior banco de
Liechtenstein administra 45
bilhões de francos (30 bilhões
de euros) da fortuna de clientes.
Além disso, como indica o
próprio site, a Casa Real de
Liechtenstein ainda é
proprietária de outros negócios
como imobiliárias, florestas,
fazendas, vinhedos, produtoras
de plantas e até mesmo de
arroz.O LGT Group e os outros 14
bancos sediados no pequeno país
cresceram ainda mais em 2005.
Como publicou o governo em julho,
as instituições aumentaram seu
faturamento em 11,6% para 38,18
bilhões de francos. No total,
essas instituições administram
uma fortuna avaliada em 128,7
bilhões de francos (um
crescimento de 20,3% em relação
a 2004). O lucro líquido foi de
742,9 milhões de francos (+
75,4%), quebrando o recorde de
2000 (549,1 milhões).
O dinheiro não para de chegar no
pequeno país alpino. O
crescimento avassalador da
fortuna acumulada chega a
estranhar seus próprio
habitantes. "Quando tanto
dinheiro chega de uma só vez num
país, isso não pode ser bom para
a nossa reputação", disse
constrangido Michael Lauber,
presidente da Federação de
Bancos de Liechtenstein, durante
uma entrevista dada recentemente
ao jornal austríaco Wiener
Zeitung. A desconfiança é
grande. No início de 2000, o
serviço secreto alemão já havia
denunciado Liechtenstein como
paraíso da lavagem de dinheiro.
Poucos meses depois, um
parlamentar, quatro agentes
fiduciários e o irmão do chefe
de governo foram presos por
suspeita de atividades
financeiras ilícitas. A OECD
chegou a colocar o país numa
"lista negra" dos países pouco
cooperativos no esclarecimento
de casos de lavagem de dinheiro.
Até mesmo de "dinheiro do
terror" circulando nos bancos do
país chegou-se a falar.Depois do
choque de 2000, o governo e o
monarca resolveram limpar a
praça. Para isso foi criado um
órgão especial de combate aos
crimes financeiros e, desde
2005, um órgão de fiscalização
dos bancos. O segredo bancário
continua existindo. Porém, a
nova lei contra lavagem de
dinheiro impede que sejam
abertas contas sem explicar a
origem dos recursos. O segredo
bancário também pode ser
cancelado em caso de processos
penais. Porém sonegação fiscal
ocorrida em outros países
continua não ser considerado um
crime, o que provoca grandes
conflitos com a União Européia
ao negar fornecer informações
sobre contas dos seus cidadãos
em Liechtenstein.
O país tem
indústria
O que poucas
pessoas sabem, é que
Liechtenstein não é apenas
paraíso fiscal e centro
financeiro: lá existe indústria.
"Menos de um terço do nosso PIB
é gerado pelo setor financeiro.
Mais importante que ele é a
nossa indústria, que responde
por 40% do PIB", reforça o chefe
de governo Otmar Hasler ao ser
questionado pelo jornalista. As
empresas, atuantes em áreas de
ponta como eletrônica fina,
nanotecnologia e outros,
contribuem para o excelente
quadro social do país: a taxa de
desemprego atual é de apenas
2,3%, uma das menores da Europa.
O governo anuncia que apenas 698
pessoas estão procurando
trabalho, o menor índice desde
novembro de 2004. Quem mais
aproveita da boa situação
econômica do principado, são os
países vizinhos. Cerca de 13.900
empregados, dos 29.500 empregos
registrados, são pessoas que vem
de fora. Destes, somente seis
mil vêm diariamente da Áustria
para trabalhar em
Liechtenstein.A grande vantagem
de ter um emprego no principado
é o baixo nível de impostos. Os
salários são taxados em apenas
17%, enquanto em países vizinhos
como a Áustria, essa taxa pode
elevar-se até 50%.
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O povão: dois
figurantes no
desfile em Vaduz. |
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Um pouco de
história
Com a adesão à
Confederação do Reno, uma liga
de principados alemães, em 12 de
julho de 1806, Liechtenstein se
transformou de fato num estado
soberano. Porém Liechtenstein já
existia antes: foi o imperador
Carlos VI da Alemanha que
deu-lhe em 1719 o status de
principado do Império através da
fusão do domínio de Schellenberg
e do condado de Vaduz. Esses
dois território haviam sido
comprados em 1699 e 1712 pela
família austríaca Liechtenstein
com o objetivo de ganhar um
assento e direito à voto no
conselho do Sacro Império
Romano-Germânico.Durante as
primeiras guerras napoleônicas
de 1799, Liechtenstein foi
ocupada pelos franceses e depois
pela Áustria. Com a dissolução
do Sacro Império
Romano-Germânico, Napoleão
convidou 16 principados do seu
antigo território para formarem,
como países soberanos, a
Confederação do Reno. O
imperador francês seria seu "protetor"
e teria em troca tropas
disponibilizadas pelos países.Em
1813, quando Napoleão perdeu na
chamada Batalha dos Povos em
Leipzig, a Confederação do Reno
foi dissolvida. Para
substituí-la, o Congresso de
Viena decidiu criar a
Confederação Alemã, do qual
fariam parte 41 Estados: 37
principados, incluindo
Liechtenstein, e 4 cidades
livres. A Confederação foi
dissolvida em 1866 ao final da
guerra de Sete Semanas, Essa foi
a última guerra na qual
Liechtenstein combateu. O país
permaneceu neutro desde então, e
não possui forças armadas desde
1868. Em 1862, o príncipe Johann
II adotou uma constituição
monárquica, quando o primeiro
parlamento foi eleito.Depois da
I Guerra Mundial, Liechtenstein
adotou o franco suíço como moeda
corrente e assinou, em 1923, um
pacto aduaneiro com o país dos
Alpes. Com a constituição de
1921, o Principado adotou o
regime de monarquia
constitucional com forma de
governo parlamentar democrática.
Até então, os príncipes viviam
em Viena.O primeiro príncipe a
viver de fato em Vaduz foi Franz
Josef II e isso só ocorreu a
partir de 1938. Durante a
Segunda Guerra Mundial,
Liechtenstein e a Suíça
mantiveram a neutralidade e
foram poupados do conflito.
Depois, graças aos laços
econômicos com a Suíça e à
política de baixos impostos,
Liechtenstein aproveitou-se da
retomada econômica e viveu um
crescimento econômico sem
precedentes. Em 1990, o país foi
aceito como membro da ONU.
Grave crise
política
Em 28 de outubro
de 1992, o país viveu uma sua
maior crise política. Foi quando
o príncipe Hans-Adam II exigiu a
realização de um plebiscito
popular sobre a adesão de
Liechtenstein ao Espaço
Econômico Europeu antes da Suíça
para garantir o seu sucesso. O
governo e o parlamento eram
contra devido à proximidade do
país com a Suíça e por saber a
oposição geral no país dos Alpes
ao acordo. Hans-Adam II ameaçou
dissolver o governo e o
parlamento e governar em estado
de emergência. A pressão popular
das ruas acabou obrigando o
chefe de Estado a ceder e o
plebiscito foi marcado para
ocorrer depois das votações na
Suíça. A crise abriu espaço para
um grande debate sobre a
constituição e a forma de
governo em Liechtenstein.Desde
1. de maio de 1995, o país é
membro do Espaço Econômico
Europeu, enquanto que este foi
recusado pelos suíços. A adesão
é considerada até hoje como um
importante fator para o
progresso econômico de
Liechtenstein, sobretudo como
centro financeiro. O país goza
das vantagens da associação com
o espaço europeu e, ao mesmo
tempo, da união aduaneira com a
Suíça, mantendo ao mesmo tempo o
segredo bancário e outras
vantagens fiscais que aumentam
sua atratividade. Em 2003, os
eleitores de Liechtenstein
aprovaram, depois de muita
discussão e polêmica, a nova
Constituição. Para os opositores,
ela reforça ainda mais a o poder
da monarquia, pois transfere
importantes atribuições do
Parlamento, do Supremo Tribunal
e do governo para o príncipe. Em
15 de agosto de 2004, o príncipe
Hans Adam II nomeou seu filho
Alois von Liechtenstein como
sucessor. Apesar deste já estar
exercendo funções executivas,
ele receberá apenas o título de
príncipe com a morte do pai.
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