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Essa boliviana
foi presa em 2002 e sentenciada
em Genebra a nove anos, nove
mesas e vinte dias de cárcere. "Não
consigo compreender essa
sentença, pois não matei ninguém.
Só faltava colocar as horas e os
minutos de cárcere", comenta
ironicamente. Ela já cumpriu 3
anos e 7 meses de prisão. María
chegou à Suíça em 1997 para
trabalhar. Fiz de tudo.
Quando fui detida, eu estava
cuidando de crianças e idosos.
Meu filho tinha na época quatro
anos, conta. O filho, cujo pai é
suíço, vive sob a tutela da sua
irmã e o cunhado.
Drogas para combater a
depressão
Por consumo e venda de droga "em
pequenas quantidades" também foi
sentenciada Tania. "Consumia e
vendia às vezes cocaína, pois
não trabalhava", diz. Essa
dominicana que, no seu país, era
cabeleireira, chegou à Suíça em
2000 "de férias, porém um homem
se apaixonou por mim e eu me
casei com ele. Ele é africano e
trabalha na construção civil".
Tania começou a consumir drogas
"para enfrentar as depressões,
pois nesse país onde tudo é tão
caro, é terrível não ter
trabalho". Condenada a 25 meses
de cárcere, ela já completou 16.
"Já cumpri dois terços da pena e
em breve devo ser solta", afirma
com um pouco de entusiasmo.
Cindy também se envolveu em
tráfico de drogas. "Transportei
cinco quilos de cocaína da
República Dominicana até a
Europa. Fui descoberta em
Frankfurt e me sentenciaram a
cinco anos de prisão". Ela pediu
para cumprir sua pena na Suíça
para estar mais próxima dos seus
quatro filhos, de 16 e 13 anos e
duas gêmeas com nove anos de
idade. "Meu ex-marido não tinha
condição de levá-los com
freqüência para Frankfurt. Por
isso eu pedi a minha
transferência, mesmo perdendo um
ano de liberdade", se lamenta.
Me deixei levar pelo luxo
Mesmo não lhe faltando dinheiro,
ela confessa "ter me deixado
levar pelo luxo". E se sua
família na República Dominicana
não pedia dinheiro, "com irmãs
estudantes, eu queria dar uma
mão a minha mãe. Enfim....",
suspira Cindy.
"A vida aqui é melhor", responde
Maria ao ser questionada sobre
as condições na penitenciária de
Hindelbank. Ela foi julgada em
Genebra, onde passou vários
meses em prisão preventiva. "Lá
eu falava com meu filho apenas
duas vezes por mês. Aqui eu o
chamo todos os dias", conta.
María se permite a esse "luxo",
graças ao dinheiro que ganha na
lavanderia da prisão. "Recebemos
entre 600 e 700 francos mensais,
porém eles nos descontam 40% do
valor", acrescenta. Na realidade,
o montante descontado é retido
pelas autoridades penitenciárias
durante o período passado na
prisão e restituído no momento
em que as internas são
libertadas.
As três latino-americanas só
conseguem elogiar as condições
materiais das penitenciárias
suíças. Elas explicam que têm
espaço suficiente nas suas celas,
a higiene é impecável e a comida
é "demasiada e de boa qualidade".
Elas até chegam a perguntar à
repórter sobre suas medidas: - "Dá
para notar vendo a gente?".
Discriminação das latinas
As detentas latino-americanas se
sentem discriminadas na prisão.
"Eles aceitam que uma
prisioneira suíça escute música
a toda altura, mas sempre nos
pedem para baixar o volume da
nossa", conta María. Cindy, por
outro lado, se queixa de que foi
obrigada a desligar o seu rádio,
mesmo sem ter um desses
aparelhos.
"Se fazemos uma pausa porque
acabamos o trabalho antes do
previsto, eles nos mandam para
outro setor e continuar
trabalhando. Às vezes não vemos
nem escutamos nada para evitar
problemas", contam as detentas.
Nesse sentido, Marianne Heimoz,
diretora de Hindelbank, assinala:
- "Com freqüência somos
confrontadas com declarações de
mulheres que se sentem
discriminadas pelas suas origens.
Também existem as suíças que se
sentem prejudicadas em relação
às colegas estrangeiras", afirma.
Sobre os aparelhos de rádio,
cada interna possui um em suas
celas, onde são fixados
diretamente no cimento. O
pessoal só intervém, pois há
reclamações de todos os grupos e
nacionalidades quando detentos
escutam música num volume muito
elevado.
A diretora confirma que é muito
relativo dizer o que é alto ou
baixo, mas seguramente as
latinas seriam tratadas de outra
maneira. Sobre as pausas na hora
do trabalho, ela explica que "nosso
sistema de pecúlio (dinheiro
efetivamente recebido pelas
detentas pelo trabalho feito na
penitenciária) flutua entre 500
e 700 francos mensais e leva em
conta o empenho individual".
"As latinas são, em geral, muito
esforçadas. Por isso elas
costumam ganhar salários
elevados. Entre as suíças,
existem muitas aquelas que são
dependentes de drogas e que não
são capazes de trabalhar ou
apenas parcialmente. Isso
explica porque elas ganham
muitas vezes menos do que uma
latina com boa saúde".
Enriquecimento cultural
Heimoz enfatiza que a composição
multicultural da penitenciária
de Hindelbank é "do nosso ponto
de vista, um enriquecimento e
uma oportunidade para
confrontar-se com outras
culturas e outras formas e
visões da vida, tanto para o
pessoal como para as próprias
detentas".
O trato igualitário é regra da
casa em Hindelbank. Isso
significa o acesso livre a todos
os serviços como formação e
atualização profissional. "A
experiência com
latino-americanas nos mostra que
quase não há problemas com elas.
Além disso, a grande parte do
nosso pessoal fala espanhol ou
português", conclui.
Heimoz reconhece que a
reinserção tem seus limites,
sobretudo pelo fato das
estrangeiras serem obrigadas a
abandonar a Suíça depois de
cumprir suas penas. "Apenas
aquelas que podem ficar no país
têm sua situação de moradia,
trabalho e finanças mais claras".
"O dinheiro que ganhei aqui vai
me ajudar". Tania irá partir em
breve de Hindelbank, que
comparado com as instituições
penais do seu país "é como um
hotel". Lá ela freqüentou cursos
de computação e costura que,
seguramente, "irão servir na
República Dominicana". "Aqui eu
tive um emprego, trabalhei com
embalagens de papelão e o
dinheiro que recebi vai me
ajudar bastante".
O que para ela é difícil de
aceitar é ser obrigada a
abandonar a Suíça quando ganhar
a liberdade. "Eu não tive um
passado criminoso, porém estão
me deportando por estar casada
com um africano. No meu país não
há dinheiro para ele. Vou ser
obrigada a abandoná-lo",
lamenta-se.
Para Cindy, de nacionalidade
dominicana e suíça, "o pior para
mim é estar tão distante dos
meus filhos, que sofrem muito
pelo que eu fiz". Cindy está
cumprindo agora a pena em regime
semi-aberto. Desde que cumpriu
um terço dela, ela pode sair
cinco horas por mês e, a cada
seis semanas, um fim-de-semana
completo.
Quando ela cumprir
definitivamente sua pena, ela
quer recuperar o tempo perdido e
voltar a viver com seus filhos.
O dinheiro ganho com o trabalho
na lavanderia será gasto com
eles e "algo" para sua família
na República Dominicana.
Tania afirma que poderá até
sentir falta de Hindelbank. "Agradeço
ao pessoal que se ocupou de mim.
Eles se esforçam para que a
gente se sinta bem aqui". Como
ela, María e Cindy se projetam
no futuro e dizem que sentirão a
ausência de todos que, durante o
tempo passado na prisão, as
fizeram esquecer que haviam
perdido a liberdade.
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