Qualidade dos serviços
públicos, percepção de
segurança, mercado de
trabalho bem organizado e
salários dignos são fatores
que exercem forte atração.
Os migrantes do segundo
grupo não sentem atração por
outras regiões, mas são
forçados a sair do país
porque são banidos ou
perseguidos e ameaçados.
Trata-se de fatores de
expulsão política que
ocorrem nas ditaduras
militares, civis ou
teocráticas. A este grupo
pertenciam os exilados
políticos brasileiros:
muitos deles encontraram
refugio na Suíça. Um dos
mais conhecidos refugiados
foi o educador Paulo Freire
que morou onze anos em
Genebra.
O terceiro grupo de
migrantes é constituído por
pessoas não forçadas por
pressão política a deixar
sua terra nem atraídas por
outro país específico. São
principalmente jovens
formados e bem informados
que, na verdade, gostariam
de morar na pátria para
trabalhar e desenvolvê-la,
mas sentem-se excluídos em
seu próprio país, seja em
razão de estruturas injustas
e de políticas públicas
inadequadas.
É o caso, por exemplo, da reserva do mercado de trabalho –
o chamado nepotismo -, da
escassez de oferta de
educação de qualidade, da
falta de saneamento básico e
de atendimento à saúde.
Pesquisa sobre os
brasileiros na Suíça
A maioria dos brasileiros
residentes na Suíça pertence
a este terceiro tipo de
migrantes. O novo fluxo de
emigração do Brasil
iniciou-se a partir de 1985
e afigura-se muito mais
intenso e persistente do que
o das décadas de 60 e 70.
Para conhecer com mais
profundidade as razões que
levaram os migrantes a
deixarem sua pátria,
entrevistamos brasileiros
que moram na Suíça. Trata-se
de uma amostra selecionada
de residentes legais, com um
perfil sociodemográfico que
corresponde ao universo dos
brasileiros na Suíça.
A pesquisa foi realizada em
2000 e 2001 em vários
centros urbanos e em algumas
zonas rurais. Os resultados
da pesquisa foram publicados
no livro "Cidadania,
exclusão, migração:
Brasileiros na Suíça", Ed.
Liber Livros, lançado em
18.08.2006 em Natal-RN.
Aleatoriedade das políticas
públicas
Um dos motivos de emigração
mencionados é a insegurança
econômica e política
reinante no Brasil, quando
por exemplo Collor - o
primeiro presidente da
República democraticamente
eleito após o regime militar
- no dia seguinte ao da sua
posse decretou o confisco
monetário.
Em vez de promover ou no
mínimo proteger a poupança
do povo, base do
desenvolvimento econômico de
cada país desenvolvido,
Collor confiscou as
economias populares. Durante
a campanha eleitoral ele
prometeu acabar com a
inflação e a corrupção
("moralização da política")
e promover o crescimento
econômico.
Entretanto, suas políticas
econômicas produziram
efeitos contrários: a
inflação anual chegou a
1.477%, a economia entrou em
profunda recessão, com um
crescimento negativo da
renda per capita da ordem de
-6% em 1990, enquanto a
corrupção atingiu níveis que
levaram o parlamento a depor
o presidente.
Os governos seguintes
conseguiram segurar a
inflação, mas o crescimento
econômico permanece fraco,
incapaz de oferecer um
número suficiente de novos
empregos.
Além disso, a corrupção
aumentou consideravelmente,
sobretudo no parlamento. O
que mais preocupa é a
ausência de um plano de
desenvolvimento de longo
prazo que ofereça à
população, sobretudo aos
jovens, a perspectiva de um
desenvolvimento econômico e
social sustentável e sólido.
A falta dessa perspectiva,
muitas vezes, é motivo para
a emigração.
Em busca do mercado de
trabalho com salários dignos
A Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988
define de forma clara o que
é um salário digno. O
salário do trabalhador deve
ser "capaz de atender a suas
necessidades vitais básicas
e às de sua família com
moradia, alimentação,
educação, saúde, lazer,
vestuário, higiene,
transporte e previdência
social" (art. 7º). O valor
desse salário, chamado pelos
sindicatos de "salário
necessário" é calculado mês
por mês, conforme o preço da
cesta básica; ele é
aproximadamente cinco vezes
mais alto do que o salário
mínimo oficial pago pelos
empregadores públicos e
privados no Brasil.
A discrepância entre os
salários efetivamente pagos
e os preceituados pela Carta
Magna é responsável pela
pobreza e o desânimo de
parte dos trabalhadores e de
suas famílias. Como muitos
jovens conhecem bem os
direitos do cidadão,
sobretudo os referentes à
remuneração, o não
cumprimento dos mesmos pelos
empregadores constitui-se
mais uma razão para procurar
um país onde a remuneração
do trabalho iguale ou supere
o salário necessário.
A pesquisa mostra que graças
a essa remuneração muitos
brasileiros gradativamente
conquistaram uma
estabilidade econômica que
permite, em vários casos,
enviar regularmente parte de
suas economias aos
familiares no Brasil.