Parlamento suíço discute plano para salvar a salsicha cervelas
 
Deuputados querem garantir o futuro dos salsichões cervelas.

Governo e deputados discutem uma saída para salvar a salsicha cervelas, cuja produção depende da matéria-prima proveniente do gado zebu brasileiro.
O futuro da salsicha nacional suíça, a cervelas, continua incerto, depois que a União Européia decidiu embargar as importações de tripas de gado zebu brasileiro, usadas para "embalar" o produto.

 
Embora não seja país-membro da UE, a Suíça é obrigada – por força de acordos bilaterais com Bruxelas – a respeitar o embargo, imposto depois de a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) incluir o Brasil na lista dos países com risco "não negligenciável" de ocorrência da doença da vaca louca (BSE).

As autoridades suíças propuseram nesta quinta-feira (06/03) uma reavaliação científica desse risco. Em seguida, pretendem pedir à Comissão Européia que avalie a possibilidade de liberar novamente a importação do produto brasileiro.

"Tudo isso leva tempo, pode demorar até dois anos. Não há solução rápida previsível", disse a ministra da Economia, Dóris Leuthard, em reposta a uma interpelação do senador Rolf Büttiker, presidente da Associação Suíça da Indústria de Carne.

Plano B

Os estoques de tripa duram, no máximo, até o final do ano. Por isso, segundo Leuthard, é preciso adotar um "plano B": a "embalagem" da salsicha poderá ser feita, pelo menos temporariamente, de materiais alternativos, como tripas artificiais.

Isso tornaria a salsicha mais reta e mais difícil de "descascar". Para os suíços mais puristas, isso seria um sacrilégio, mas, na opinião de Leuthard, não representaria nenhuma tragédia para os consumidores.

Ode à salsicha

Büttiker conclamou o governo a não subestimar o problema. "A cervelas representa uma mistura de simplicidade, natividade, romantismo – por ser assada no fogo de chão em campings, por exemplo – e orgulho nacional", disse.

Para salvar a salsicha, a Associação Suíça da Indústria de Carne criou uma "força-tarefa", integrada ainda por representantes do Departamento Federal de Veterinária (OVF, na sigla em francês), dos varejistas e dos comerciantes suíços de tripas.

A tripa de gado zebu é considerada ideal para a produção da cervelas, que representa 30% da produção de salsichas da Suíça, um mercado estimado em cerca de 100 milhões de francos.

Os suíços consomem 160 milhões ou 25 mil toneladas de cervelas por ano. Para isso, são abatidos 360 mil porcos e 120 mil bovinos, dos quais 90% são de origem suíça.

Patrimônio culinário nacional

Mas a questão não é só econômica. Nas últimas semanas, a imprensa sensacionalista, a indústria de carnes e diversas personalidades elevaram a cervelas à condição de patrimônio culinário suíço, no mesmo nível do fondue ou da raclette (prato típico da região do Valais).

Apesar do tom em parte jocoso do debate, o governo lembra que se trata de um sério problema de segurança alimentar. "No longo prazo, a solidez econômica da indústria de carnes depende de medidas que reforcem a confiança dos consumidores nos alimentos suíços", afirma.

Segundo o Conselho Federal (Executivo suíço), não é possível forçar a União Européia a abrir uma exceção para a importação da tripa de bovinos brasileiros, como pediu a indústria do setor de carnes.

Estratégia dupla

O ex-diretor do Departamento Federal de Veterinária, Ulrich Kihm, hoje dono de uma firma especializada em segurança alimentar e combate a pestes animais, sugeriu uma estratégia dupla para salvar a cervelas.

Por um lado, ele pretende ensinar aos frigoríficos brasileiros a eliminar o último risco de BSE. Só assim o país poderia conseguir em 2009, junto à OIE, o fim do embargo europeu.

Por outro lado, Kihm planeja junto com colegas da Holanda, da França e do Reino Unido conseguir para os suíços o que a União Européia negou aos holandeses e franceses: o reconhecimento de que a tripa de bovinos é um alimento insuspeito.