Um pedaço do pantanal do Mato Grosso no meio de Zurique

O macaco-de-cheiro já está habitando uma das ilhas do "Pantanal".

O Zoológico de Zurique, o maior da Suíça, inaugurou há uma semana sua mais nova ala dedicada ao Pantanal, maior planície de inundação contínua do mundo e também abrigo de uma das mais ricas faunas do planeta.

 
Com nove nove mil metros quadrados, o espaço a céu aberto recria o ambiente natural do Pantanal com rios e animais, alguns até soltos, e explica aos visitantes o problema do tráfico e das espécies em extinção. 

É fechar os olhos e se acreditar no Brasil: as duas entradas do "Pantanal" estão marcadas por grandes portais de madeira lascada, onde estão fixadas placas escritas em português para anunciar o início da Transpantaneira e alertar os visitantes sobre a interdição de uso de fogo nas unidades de conservação brasileiras. De um lado está parado o carro da Polícia Militar Ambiental do estado do Mato Grosso, mostrando que os agentes da lei estão de vigília.
 
Porém as árvores ainda desfolhadas no início da primavera e as temperaturas muito mais amenas do que as que reinam no clima pantaneiro indicam que o local está no coração da Europa, mais exatamente no Zoológico de Zurique. A ilusão de ótica é, na realidade, a sua mais nova atração: uma nova ala inaugurada em 21 de março, depois de 18 meses de trabalho intensivo de biólogos, mas também de paisagistas e botânicos.
 
O resultado se estende por uma área de 9.700 metros quadrados e surpreende. Assim como o verdadeiro Pantanal - o ecossistema com 250 mil quilômetros de extensão, seis vezes maior do que a Suíça, distribuído entre o sul de Mato Grosso, o noroeste de Mato Grosso do Sul, o norte do Paraguai, e o leste da Bolívia - o espaço criado no Zoológico de Zurique lembra um alagado de vários pequenos rios, com três pequenas ilhas cobertas de vegetação interligadas entre si. Em algumas das margens descansam as antas. As capivaras nadam livremente na água verde, enquanto os tamanduás procuram nos cupinzeiros a comida escondida pelos tratadores, uma ideia para promover o comportamento natural dos animais e também com fins didáticos.
 
"Os animais mantidos no Zoológico de Zurique são embaixadores para os das suas espécies que vivem ainda nos espaços naturais. Os animais e plantas no zoológico sensibilizam os visitantes para as questões da proteção ambiental", explicou o diretor Alex Rübel à mídia, no dia da abertura. No mesmo contexto de recriar espaços naturais como o Pantanal, a instituição já havia inaugurado há dez anos o pavilhão tropical Masoala, uma gigantesca estufa na qual foi replantada uma floresta tropical do Madagascar e o onde aves e animais nativos vivem em liberdade.

 

Convivência 

No total, 100 animais vivem na ala "Pantanal". Cercadas por água, as três ilhas são lar de oito macacos-prego-do-peito-amarelo e 20 macacos-de-cheiro, duas espécies especialmente ameaçadas de extinção devido à caça e à destruição do seu espaço natural pelas atividades agrícolas. O acesso a uma das ilhas é permitido aos visitantes com o acompanhamento de um guia. Para impedir o contato direto entre os animais e as pessoas, a alimentação é proibida. Porém a experiência para muitos é única, ao estar tão próximo da movimentação dos macacos.
 
Outra atração do espaço são as aves: flamingos, cisnes e aves também ameaçadas como araras-vermelhas, araras-azul-grande. A ideia é que elas possam se movimentar livremente pelo alagado como na natureza através das cordas de sisal penduradas entre as árvores e também seus galhos. Porém o clima europeu limita a imaginação dos especialistas. "Com exceção dos flamingos, que se adaptam bem ao frio, as araras são muito sensíveis às mudanças climáticas e, portanto, precisam ficar nos abrigos quando as temperaturas caem demais", conta Samuel Furrer, biólogo empregado no Zoológico de Zurique desde 1999.
 
Questionado sobre a falta de alguns animais típicos da região, o curador responsável por vários biótopos no zoológico explica os desafios de tentar recriar espaços naturais em um recinto fechado. "Jacarés não são resistentes ao frio e também não poderiam juntos com capivaras e antas. O mesmo vale também para as onças-pintadas. As emas, por exemplo, são aves muito agressivas com os outros animais. Por isso o nosso objetivo é encontrar um bom equilíbrio no agrupamento de animais para dar uma ideia aos visitantes da riqueza da fauna dessa região", afirma Furrer.
 
A vivência é completada por outra atração da nova ala: uma réplica perfeita de uma habitação rústica de beira de rio. Nela, os visitantes do zoológico descobrem como os agentes de fiscalização do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos) vivem e trabalham. Os objetos como aparelhos de rádio - que emitem alertas em português das autoridades - peles apreendidas, fichários com documentos, uma rede para descanso, quadros informativos e até uma cela com um preso dentro, servem para abordar o tema do comércio ilegal de animais silvestres. Estimativas falam que mais de 38 milhões de animais selvagens são capturados por ano no Brasil, especialmente nas regiões do Pantanal e do Amazonas, e são exportados a países como EUA, Alemanha ou Suíça.

 

Financiamento privado 

A construção da ala Pantanal custou 9,7 milhões de francos, financiados completamente por doadores privados. O projeto de reforma do Zoológico de Zurique, intitulado "Masterplan 2030", deve transformá-lo em uma década em um grande centro de proteção da natureza. A sua área aumentará para 27 hectares e o número de animais deve diminuir. "Nós queremos exibir os animais em seus espaços naturais", explicou o diretor Rübel à imprensa, lembrando novos planos como a construção já iniciada de um grande parque de elefantes e uma savana africana, incluindo girafas.

 

Os resultados tem sido prometedores, como demonstra o número atual de visitantes (1.8 milhões por ano). "Hoje o zoológico é uma das atrações mais visitadas na Suíça", completou Martin Vollenwyder, membro do governo municipal de Zurique e do conselho de administração do zoológico.