Em Berna, dois museus, em parceria,
montaram uma exposição intitulada
“Bin ich schön? / J’suis beau?”
(Sou bonito?). A pergunta formulada
na mostra é mais importante do que
parece, pois na Suíça, com
frequência, os solicitantes de
emprego incluem uma foto no
currículo.
“Originalmente, a exposição fora
denominada “O que é bonito?”
decidimos porém, trocar o nome,
porque queríamos confrontar o
visitante com uma questão pessoal,”
disse Kurt Stadelman, curador do
Museu da Comunicação, à
swissinfo.ch. Este museu apresenta o
grosso da exposição, cabendo o
remanescente ao Museu de História
Natural.
“É uma atitude um pouco provocante
solicitar ao visitante que se
indague a si mesmo se é bonito. Mas
esperamos que os interessados
recebam algumas respostas” disse
Stadelmann, realçando não haver
espelhos à disposição nos locais.
Ele confia que as pessoas encontrem
a própria beleza interior ao
observar animais, bonecas, capas de
revistas e outras referências
culturais – como uma imagem de Nossa
Senhora e um filme de propaganda
nazista, retratando o “perfeito”
atleta.
Lifting
A exibição respire o ‘Zeitgeist’ (espírito
da época). Na Suíça, o número de
cirurgiões plásticos – seja de
cirurgia reconstrutora, seja
estética – tem aumentado
constantemente com o correr dos anos.
Em 1980, havia 24 cirurgiões
plásticos no país. Hoje chegam a
135, aproximadamente.
Mas o que levaria as pessoas a
desejarem alterar a própria
aparência? É o que swissinfo.ch
perguntou ao cirurgião Daniel Knutti,
de Biel/Bienne, na profissão desde
1988.
“As pessoas não querem
necessariamente uma mudança – querem
uma melhor aparência, ficar mais
bonitas ou, ainda, realçar as partes
mais belas do corpo – em geral para
se sentirem melhor.”
Ela tem verificado, nos últimos dez
anos, um acentuado aumento do número
de cirurgias para ampliar o volume
dos seios.
“Realizo também certo número de
lifting facial, mas as mulheres de
certa idade procuram especialmente
livrar-se de rugas ou de um relaxe
cutâneo, diz Knutti.
Ele observa que os homens
representam apenas de 10 a 15% de
seus pacientes.
“Eu sempre disse que as mulheres são
mais tolerantes que os homens no que
diz respeito à aparência.
Um homem pode ter cabelos brancos,
rugas e, mesmo assim, ser
interessante para uma jovem,” diz o
cirurgião.
Mas ele realiza mais intervenções em
homens que anteriormente, em
particular em torno dos olhos. “Isso
faz com que eles melhorem o aspecto
– fiquem mais jovens, mais despertos,
mais dinâmicos – sem mudar demais a
aparência,” afirma Knutti, que
indica se ter submetido a uma
cirurgia nas pálpebras (blefaroplastia).
Knutti fez também transplante de
cabelos.
Membro da Sociedade Suíça de
Plástica, Cirurgia Reconstrutora e
Estética, Daniel Knutti integra
igualmente a diretoria da Sociedade
Internacional de Cirurgia Plástica
Estética. Graças à sua vasta
experiência, ele pôde observar, em
vários pontos do mundo, certas
diferenças na maneira como as
pessoas gostariam de se ver.
“Os asiáticos apreciam feições mais
caucásicas, como o cavalete do nariz
mais alto, pálpebras superiores do
tipo ocidental e seios mais
volumosos. Os caucasianos gostam de
olhos asiáticos ligeiramente
inclinados. Já os árabes não
apreciam seus narizes robustos.
Após a operação, lembra Knutti, não
é raro os pacientes dizerem que vida
deles mudou com a cirurgia estética.
“Mesmo com uma pequena alteração (física)
pode influenciar a vida do paciente.
Simplesmente o fato de se sentir
seguro, feliz e autoconfiante
repercute no dia-a-dia. Tem
certamente uma consequência
importante para o sucesso e o
bem-estar,” observa Knutti.
Perspectivas de emprego
Isto pode, de fato, repercutir numa
perspectiva da busca de trabalho. Na
Suíça, frequentemente, as pessoas
que solicitam emprego incluem uma
foto no currículo por acharem que
essa iniciativa seja esperada.
Segundo José M. De San José, do
departamento de Markeking de ‘Adecco
Switzerland’ – empresa de recursos
humanos – isso se explica pelo fato
de o patrão gostar de ter uma
primeira impressão do candidato.
“Evidentemente a profissão é também
um fator (em que a aparência tem
importância). Se se trata de um
trabalho na produção, não é
importante ver uma foto. Mas quando
se refere a um ramo da área de
serviços, o empregador fica contente
em dispor de uma fotografia, disse
San José à swissinfo.ch.
Ele admite que as pessoas de bom
aspecto podem levar vantagem quando
se reduz o número de candidatos com
qualificação similar.
“Posso, então, imaginar que o patrão
favoreça o currículo de alguém cuja
foto o impressione mais. Assim, a
aparência pode desempenhar papel
numa entrevista de um candidato,”
explica San José.
Sua empresa dá dicas às pessoas
sobre a maneira de apresentar-se, de
se comportar. Mesmo assim nada
substitui uma personalidade forte.
“Para empregos no setor de vendas, o
carisma é mais importante que a
aparência. Uma pessoa pode ser
esquia, estar bem vestida, bem
penteada e não agradar,” diz San
José, lembrando que a beleza é muito
subjetiva.
“Para carreiras de sucesso, são mais
importantes os cuidados corporais, o
vestir-se bem, simpatia, motivação e
uma mentalidade orientada para o
serviço. Nesse caso, a não ser que
você seja modelo, você não pode
fazer carreira, diz San José.
No entanto, mesmo uma pessoa comum
pode parecer um modelo com cuidados
corporais, roupas apuradas e uso das
técnicas de edição de fotos, como
demonstra um vídeo na exposição “Sou
Bonito?” – prova de que não faz
sentido comparar-se a si mesmo com
imagens retocadas de ‘outdoors’ e
revistas.
“Fico contente se os visitantes
saírem da exposição pensando “não
sou realmente bonito, mas sou
atraente.” Acho que é esta a melhor
maneira de ver a si mesmo, porque
você pode ficar simpático até os 100
anos – sem problema,” diz Stadelmann.
“Mas ficar bonito centenário é muito
mais complicado!”